O deus Pã a tocar a seringa em La Pedrera

Ao passarmos pela porta de ferro forjado e vidro do edifício, somos recebidos pelas notáveis pinturas nas paredes dos átrios de entrada da Casa Milà.

07 Maio 2018
Dropped
Voltar

Uma das tapeçarias reproduzidas no pátio de Passeig de Gràcia de La Pedrera é a representação de Pã e Seringa, no âmbito da lenda romana dos deuses Vertumno e Pomona, que conta a origem da Flauta de Pã.

Na mitologia grega, Seringa era uma ninfa que gostava de caçar com arco e flecha. O deus Pã, deus dos pastores e dos rebanhos, encontrou-a um dia, apaixonou-se por ela e começou a persegui-la até que a ninfa se atirou para o rio. Ali, encurralada, pediu ajuda às suas irmãs ninfas, que comovidas converteram-na num canavial.

Quando Pã chegou, apenas pôde abraçar as canas embaladas pelo vento e gostou tanto do burburinho que produziam que decidiu construir um novo instrumento musical com estas. Assim criou a seringa (chamada assim em memória da ninfa), também conhecida como a Flauta de Pã.

A tapeçaria expressa de forma condensada: «Pã a tocar a flauta de sete canas e, ao seu lado, Seringa a rejeitá-lo com o braço levantado». Pã é representado como metade homem e metade animal, com dois cornos à frente, o corpo de veludo e os membros inferiores são os de um bode, os pés com cascos e as pernas fortes e vigorosas.

Desta forma singular, o deus Pã recebe-nos a tocar a seringa em La Pedrera no meio de uns espetaculares e luxuosos cenários de jardins arquitetónicos nos quais se descrevem os amores de Vertumno e Pomona.

Poderia haver melhor forma de começar a trabalhar, visitar ou desfrutar das atividades do que acompanhados por deuses e deusas, ninfas e um jardim de flores?

A técnica empregue para a sua execução consiste em reproduzir as fotografias das gravuras a preto e branco que Clapés tinha das tapeçarias da coleção do Real Património, empregando «cores pálidas». O diaprat é uma técnica que se refere a objetos decorados com cores muito vivas, utilizada na heráldica e que aplica as cores formando folhagens. Uma técnica que oferece impactantes resultados e representa um exercício de grande disciplina e entrega.

Utilizou cartões com a quadrícula traçada por ele mesmo para depois passá-los, fragmento a fragmento, para as paredes. Os diferentes cenários foram pintados a óleo. Nesta tarefa participaram, como ajudantes de Clapés, os destacados pintores Iu PascualXavier Nogués e Teresa Lostau, por aquelas datas talentos novatos.